Paz sem Causa

Há momentos em que temos a sensação de que alguma coisa dentro de nós nos sufoca, inibe a alegria e a vontade de viver. Algo requer transformação, e uma nova forma de sustentar a vida começa a se impor.

As respostas que antes nos serviam deixam de servir. A mente procura saídas, constrói hipóteses, revisita acontecimentos, antecipa perigos, tenta, em vão, recompor aquilo que se partiu. Quer compreender, corrigir, encontrar uma saída no labirinto por onde possamos escapar desse cenário.

Não é possível voltar no tempo.

Há experiências diante das quais a mente simplesmente não consegue nos conduzir. Podemos compreender mais, conhecer as causas e, ainda assim, continuar sofrendo. Talvez a verdadeira virada esteja em deslocar o foco: daquilo que ainda tentamos compreender para aquilo contra o qual continuamos lutando. Contra o que estamos lutando? Que mensagem se esconde por trás das aparências?

Há perdas, doenças, despedidas, fracassos, rupturas e acontecimentos cuja razão mais profunda talvez nunca saibamos. Na minha percepção, há uma Inteligência Maior, uma ordem universal que excede nossa compreensão. Mas, quando somos chamados a confiar nessa Ordem que não compreendemos, a mente resiste, sente a iminência da perda do trono, e a batalha prossegue.

Talvez seja necessário procurar em nosso mundo interior uma compreensão mais elevada, sem poluição mental. Não como fuga da realidade, mas como uma mudança de lugar a partir da qual possamos enxergá-la. Talvez seja justamente aí que a Aceitação comece a revelar sua verdadeira natureza.

Durante muito tempo imaginei que aceitar fosse uma decisão, algo como chegar diante de mim mesmo e dizer: “Está bem. Eu aceito.” Hoje sinto que a Aceitação verdadeira não é decidida. Ela emerge das profundezas do Ser, às vezes depois de muita luta, quando já não conseguimos sustentar a guerra contra aquilo que foge à logica mental.

A Aceitação chega como fruto de uma espécie de rendição à Sabedoria da vida, quando a mente finalmente percebe que a pretensão de controlar tudo apenas alimenta a ansiedade e a sensação de fracasso. E essa rendição não se parece com derrota. Pelo contrário, traz paz.

Estranhamente, aquilo que poderia parecer o reconhecimento de uma derrota abre as portas do mundo interior. Talvez grande parte do sofrimento não venha apenas do que aconteceu, mas da luta contra uma realidade que muitas vezes não conseguimos compreender.

Todas as dores pedem entrega, mas outras também pedem reparação. Quando ferimos alguém, talvez o primeiro gesto seja reconhecer, pedir perdão quando couber e reparar o que ainda puder ser reparado. Mas chega um momento em que já não há mais nada a fazer do lado de fora. Então, o caminho se volta para dentro.

É preciso entregar à Sabedoria da vida aquilo que não pode mais ser desfeito e permitir que a Aceitação alcance também quem errou. Talvez seja aí que o autoperdão comece: não como esquecimento, nem como absolvição, mas como uma reconciliação profunda com a própria humanidade. A pedra foi lançada, as águas se moveram, as ondas tocaram outras margens. Não podemos recolher a pedra nem apagar os círculos que ela produziu. Mas podemos aprender com aquilo que se moveu em nós e, pouco a pouco, deixar que o lago volte a encontrar sua serenidade.

Não podemos voltar no tempo, mas podemos permitir que aquilo que aconteceu nos transforme. Há uma diferença profunda entre reconhecer o próprio erro e transformá-lo numa sentença sobre quem somos.

A realidade permanece, mas a guerra pode terminar. O problema pode continuar. A perda continua sendo perda. A ausência continua sendo ausência. As circunstâncias podem permanecer exatamente como estavam.

Mas nós mudamos de lugar.

É como se saíssemos, por um instante, do centro da tempestade mental e nos sentássemos em um lugar mais alto dentro de nós mesmos. Um ponto de onde conseguimos olhar aquilo que acontece sem sermos inteiramente arrastados por aquilo que acontece. E então pode surgir uma quietude que não depende de a vida ter se organizado, uma serenidade que não veio porque recebemos boas notícias, uma plenitude sem causa aparente.

É como sentir novamente os aromas da bem aventurança. Por alguns instantes, o movimento compulsivo da mente diminui. O ar parece diferente. O silêncio deixa de parecer vazio. Não precisamos chegar a lugar algum. Estamos simplesmente vivos. E estar vivo basta.

Existe em nós um lugar que a razão não consegue alcançar por inteiro, mas que, em certos momentos, se deixa sentir. É nesse ponto que podemos conhecer uma Fé inexplicável, uma confiança silenciosa na vida, uma Entrega que não significa desistência e uma Gratidão que não depende de explicações. Deixamos de exigir que tudo faça sentido e reconhecemos que há algo em nós — ou além de nós — que permanece quando nossas respostas acabam.

A vida continua com seus mistérios. Mas, por vezes, dentro de experiências que jamais teríamos escolhido, descobrimos uma força, uma ternura, uma capacidade de amar e uma gratidão que antes desconhecíamos.

O mundo pode não ter mudado. A situação pode ser a mesma. Mas alguma coisa em nós voltou para casa. E, nesse lugar, ainda que por um instante, conhecemos aquilo que talvez sempre tenha estado ali: uma paz que não precisa de motivo para existir.

Uma paz sem causa.

“Além da ambição, além da conquista, está o lar. Contentamento, sem conteúdo.
Paz, sem causa”

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