-
Guie-se pelo Coração
“A visão só se torna clara quando olhamos para o nosso próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”
(Carl Jung)
-
Enquanto o Propósito se Revela
“A ansiedade nasce quando queremos colher frutos enquanto ainda deveríamos estar criando raízes”
Há períodos em que tudo parece fluir naturalmente. O vento sopra a favor, o mar permanece sereno e a embarcação segue seu rumo sem grandes esforços. Nesses momentos, acreditamos que nada pode nos abalar e que temos plena compreensão da vida.
Mas basta que o horizonte escureça, que os ventos mudem de direção ou que uma tempestade inesperada se forme, para que as dúvidas reapareçam. As provas escancaram nossas fragilidades, revelam o quanto ainda somos governados pelo medo, pela ansiedade e pelas sombras que insistimos em rejeitar.

O bom navegador não se preocupa em controlar os ventos, tampouco dominar as marés. Ele apenas aprende, pouco a pouco, a ajustar as velas. Essa é uma tarefa hercúlea, sem fim. Ainda assim, podemos encará-la com gratidão, como uma oportunidade permanente de amadurecimento da consciência.
Uma pergunta tem me acompanhado há muito tempo: será que estou vivendo de acordo com o propósito para o qual fui criado?
Como saber se as escolhas que faço estão alinhadas à vontade do Criador ou se são apenas projeções dos meus próprios desejos? Essa inquietação nasce da mente que deseja controlar a vida ou do espírito que “faz pressão” para que possamos viver uma vida plena de sentido?

Durante muito tempo imaginei que a questão mais importante fosse descobrir meu propósito. Hoje começo a suspeitar de que talvez exista uma pergunta mais tranquilizadora e menos misteriosa:
De: “Qual é o meu propósito?
Para: “Como viver plenamente enquanto o propósito ainda está se revelando?”Essa simples mudança de perspectiva alivia um enorme peso. Retira da mochila a ansiedade, as culpas, a necessidade de controlar o futuro e a pressa de chegar a algum lugar. Quem sabe, intimamente, estivesse esperando uma grande revelação, uma epifania, quando talvez a vida sempre tenha preferido se revelar discretamente, passo a passo.
Talvez a vida nunca tenha exigido de nós a compreensão completa do caminho. Talvez ela apenas nos peça fidelidade ao próximo passo. Inteireza de presença.
Talvez tenhamos passado a vida admirando o dedo dos grandes sábios, discutindo suas palavras e seus conceitos, quando o mais importante sempre foi olhar para a direção que eles apontavam.
Carl Jung afirmava que o processo pelo qual a pessoa se torna aquilo que, em essência, ela é chamada a ser (Individuação) não consiste em inventar uma nova identidade, nem em aperfeiçoar as máscaras que criamos para sermos aceitos. O verdadeiro trabalho é muito mais humilde e, ao mesmo tempo, muito mais profundo: reconhecer nossa natureza essencial, integrando à própria vida, inclusive, aquilo que preferimos esconder: nossas sombras.
As sombras e todas as não conformidades da persona não pedem rejeição. Pedem acolhimento e integração. Somente aquilo que é reconhecido pode ser transformado, e essa é uma das questões-chave do despertar da consciência.
“Até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida, e você o
chamará de destino.”
(Carl Jung)Assim como a luz atravessa os vitrais de uma antiga catedral e revela uma beleza extraordinária para quem contempla seu interior, também existe em nós uma beleza que só se revela quando voltamos o olhar para dentro. Como, porém, estamos acostumados a viver presos às aparências, quase sempre observamos apenas a face externa da existência. É como quem permanece do lado de fora do templo, vendo apenas pedaços de vidro presos pelo chumbo, sem imaginar a obra luminosa que se revela no interior.

A ansiedade nasce quando queremos colher frutos enquanto ainda deveríamos estar criando raízes. A natureza nos ensina isso diariamente.
Será que a semente do carvalho sofre porque ainda não é árvore? Será que se angustia por ainda não oferecer sombra aos viajantes? Será que se compara às árvores centenárias da floresta?
Ela simplesmente rompe sua casca quando chega a estação. Aceita silenciosamente os ventos, as estiagens, os invernos e as primaveras. Cada desafio não interrompe seu crescimento. Cada desafio é a expressão do próprio crescimento.
Nós, porém, desejamos os frutos antes das raízes. Queremos compreender o destino antes mesmo de aprender a caminhar. Acho que por isso o processo de crescimento seja tão doloroso.
Michelangelo dizia enxergar a escultura pronta dentro do bloco de mármore. Afirmava que seu trabalho consistia apenas em retirar aquilo que escondia a obra, ou seja, os excessos.

Aos poucos, a própria experiência da vida nos mostra que o olhar da mente enxerga apenas uma pedra bruta, enquanto o olhar do espírito contempla a obra acabada. Os milagres acontecem aqui, quando pautamos nossa vida pela rendição àquilo que vem do espírito.
Enquanto nos preocupamos com cada golpe do cinzel, com as dores do parto do novo ser, o Criador sabe exatamente o que está formando. Talvez muitas provas e desafios sejam apenas excessos de lascas caindo para revelar quem realmente somos.

Ao olhar para trás, percebo que os acontecimentos mais importantes da minha vida quase nunca nasceram dos meus planejamentos mentais, mas como obra da Graça.
Os encontros decisivos.
As mudanças mais profundas.
As oportunidades inesperadas.
Os momentos de maior crescimento.Foi justamente nos períodos de recolhimento, silêncio e entrega que a vida encontrou espaço para agir.
Hoje compreendo que fé não é acreditar que tudo acontecerá exatamente como desejo. Fé também não é passividade. Muito menos resignação.
Fé é confiar que existe um sentido para a vida, mesmo quando ainda não conseguimos enxergá-lo. É continuar caminhando quando o mapa permanece incompleto.

É ajustar as velas sem pretender controlar o vento. É aceitar que a árvore já existe, em potencial, dentro da semente. Enquanto nós vemos apenas uma pequena semente enterrada na terra, o Criador já contempla o carvalho.
Essa é a serenidade que tanto procuramos. Não a certeza de conhecer todo o percurso, mas a confiança de que Aquele que nos chamou à existência conhece o porto antes mesmo de iniciarmos a viagem.
Por isso, meu maior desafio, hoje, é aprender a viver com fidelidade o presente, sem tanta ansiedade em compreender plenamente o propósito. Desconfio que ele não seja um destino que encontraremos ao final dessa curta trajetória.
Talvez ele seja algo que se revela aos poucos, silenciosamente, enquanto caminhamos.

Envie seus comentários
Livro Pedra no Lago
Instagram
Canal Youtube
