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Flores Raras
“Nos campos solitários e nos cumes desérticos nascem as flores mais belas. Tão pequeninas, passam despercebidas, mas tão grande em esplendor glorificam a Fonte da Vida […] Desabrocha assim como essas criaturas. Nada sabem de sua pequenez nem de sua grandeza; apenas louvam e erguem-se aos céus”
(Jose Trigueirinho)
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Aprendendo com o Bambu
Muito tempo pode transcorrer até que as sementes do bambu revelem os primeiros sinais de vida. Após um longo período de preparação invisível, começam a surgir os primeiros rizomas e brotos.
Enquanto isso, as raízes se aprofundam silenciosamente.
Espalham-se pelo subsolo, formando uma vasta teia de sustentação e cooperação, preparando o terreno para que os brotos possam emergir e crescer com firmeza. Em algumas espécies, décadas são necessárias para que os primeiros sinais de vida se tornem visíveis aos olhos.
Assim também acontece conosco.
À medida que nos interiorizamos, que deixamos que o silêncio se instale, criamos raízes. Acessamos regiões da consciência antes adormecidas e começamos, lentamente, a estruturar uma base interior mais profunda, construindo uma espécie de “intimidade” com o Ser.

E é justamente aqui que o bambu desvela seus ensinamentos mais silenciosos: a persistência sem ansiedade, a confiança nos ciclos da vida e a espera serena pelos primeiros sinais daquilo que amadurece nas profundezas.
É preciso fé no invisível, naquilo que está muito além das aparências.
Sabemos que tudo amadurece no tempo certo. A estrada parece longa para uns e breve para outros. Mas a comparação, a ansiedade por resultados imediatos e a ilusão das conquistas externas apenas retardam a marcha e inibem a expressão do espírito.
A sinceridade e a perseverança na busca da essência divina vão formando as bases de sustentação para os períodos de adversidade. E, nesses momentos, somos convidados a buscar apoio justamente nas raízes do espírito.

O bambu também nos ensina sobre flexibilidade. Seu caule curva-se diante da ventania, mas não quebra.
Os nódulos lhe garantem firmeza e integridade, como se cada segmento fortalecesse a planta diante do vendaval. E, entre um nódulo e outro, existe o vazio — espaço essencial que permite leveza, elasticidade e expansão.
Também em nós existe esse espaço interior. Um campo silencioso da consciência que permanece intacto, não contaminado pelos excessos da mente, pelos condicionamentos ou pelos ruídos emocionais. O Vazio, que contém Tudo, é um espaço de paz, harmonia e serenidade.
Ele é o nosso Lar! Onde mais encontrar refúgio e sustentação?

O bambu ainda nos fala sobre confiança e sobre as oportunidades que as provas trazem.
Anos podem passar até que os primeiros brotos apareçam acima da terra. Ainda assim, a vida segue trabalhando em silêncio, sem ansiedade, sem pressa, sem conflito com o tempo, sem críticas. Sabe que “todo pensar que vai além do momento presente, apenas faz sofrer o coração”.
Talvez seja justamente isso que nos falte compreender: nem tudo o que é verdadeiro aparece imediatamente. É preciso viver a plenitude do momento presente, com entrega, desapego e fé no processo. Tudo virá no tempo de Deus.
Assim como o espaço oco e a distância entre os nódulos garantem ao bambu flexibilidade sem fragilidade, também as dificuldades chegam na justa medida para ampliar nossa consciência. Simbolicamente, os nódulos também podem nos lembrar da importância da gratidão diante das provas da vida, as quais nos fortalecem.
Muitas vezes, é nas pausas, no vazio e no silêncio interior que encontramos respostas, direção e sentido. A Luz do Ser clareia a mente e abre espaço para que o novo possa surgir.

O bambu também traz um especial ensinamento: a simplicidade.
Buscar as respostas e a sustentação dentro de si mesmo pode parecer algo mirabolante, reservado a alguns seres especiais. Na verdade, é tudo muito simples, como o bambu, com seu caule e algumas folhas. Basta apenas ousar experimentar, deixar-se ser conduzido pela Luz do Ser.
Esse simples movimento talvez seja a essência da renovação e do resgate da nossa pureza original. Basta uma intenção singela e honesta de querer se transformar por dentro. A sabedoria emerge quando decidimos pautar nossa vida pelos atributos do Ser.

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