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Desapegue-se
O verdadeiro desapego não nasce da renúncia forçada, mas da percepção silenciosa de que nada realmente nos pertence — tudo apenas flui através da Vida. Quando compreendemos essa unidade, partilhar deixa de ser esforço ou virtude, mas uma expressão natural do próprio Ser
(Livro – Pedra no Lago – Inspirando o Bem)
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O Fluxo da Prosperidade
Trata-se de uma breve narrativa que pode nos trazer ensinamentos sobre a verdadeira prosperidade.
A dois irmãos foram concedidas terras, servos e o reconhecimento de reis — e, como tais, eram reverenciados. Pelo poder que deles emanava, todos se curvavam diante de sua presença.
Um dos irmãos seguia o curso que os dias lhe traziam. Percebendo as necessidades do povo, doava-lhes tudo o que possuía para que as terras prosperassem e para que a fome pudesse ser banida dali.
O outro, por sua vez, retinha tudo o que lhe chegava às mãos. Ambiciosamente, acumulava aquilo que a terra oferecia.

Passaram-se os anos, e o reino do primeiro irmão prosperava à medida que ele partilhava os bens que lhe eram entregues. A gratidão com que aquelas terras respondiam revelava-se na abundância das colheitas e na expansão do cultivo. O povo crescia em virtude e sabedoria sob aquele governo simples e humilde. Em sua corte não havia exageros nem desperdícios, e vivia-se com a mesma simplicidade dos aldeões e servos.
Já no reino de seu irmão, o povo faminto e sem forças mal conseguia trabalhar. Sua vida era absorvida em vícios, excessos e esbanjamento, conduzindo tudo à ruína e ao caos. Abandonadas e infecundas pelo mau uso, as terras já nada produziam. Havia fome, medo e desespero.
Com o passar do tempo, tornou-se evidente que a ganância, a ambição e o apego ao efêmero agem como densas nuvens que abafam a vida. Delas nascem apenas esterilidade, sofrimento e escassez.

Talvez a vida também siga essa mesma lei silenciosa: tudo aquilo que flui naturalmente tende a prosperar.
O desafio está em atuar na vida como uma nascente que, se represasse a água que dela brota, acabaria por sufocar a si mesma. A abundância se assemelha a um rio que não interrompe seu curso para possuir aquilo que toca. Ele apenas segue, irrigando os campos, nutrindo a vida e permitindo que tudo floresça ao seu redor.
Assim, parece que a verdadeira prosperidade não está no acúmulo, mas na confiança de que a Vida provê incessantemente aquilo que é necessário. Quanto mais nos agarramos ao efêmero, mais nos afastamos da simplicidade do fluxo harmônico da existência.
O desapego não é perda. É liberdade.

Quando deixamos de viver apenas para nós mesmos e compreendemos que fazemos parte de uma única corrente de vida, algo silencioso se transforma dentro do coração. A necessidade de possuir começa a ceder espaço ao impulso natural de compartilhar.
E é justamente aí que a abundância e a prosperidade se revelam. Não como excessos, mas como plenitude. Não como conquistas, mas como harmonia com o Todo.
A vida flui naturalmente para aquele que já não tenta represá-la.
- Texto adaptado do artigo: Histórias de Sabedoria: descobrindo o segredo da abundância. Autor: José Trigueirinho. Fonte: Jornal O Tempo, de 09/set/2018.

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