Os buracos da estrada da vida parecem travar a marcha, ofuscar o brilho da alma que anseia por se expressar. Há sempre uma luta interna, silenciosa, para descartar o lixo ancestral que carregamos por eras a fio. A mochila pesada retarda a caminhada e estreita o horizonte, fazendo-nos esquecer que os terrenos irregulares existem para fortalecer nossos passos.
A mente rígida é persistente e raramente quer abdicar do trono. Sempre encontra uma desculpa, um motivo, uma narrativa para conduzir o ser aos recantos mais escuros, onde a Luz parece distante. Culpa, arrependimento, orgulho, fracasso, medo… todo esse material espúrio, quando não observado de forma sábia pelo “Observador Interno”, torna-se adubo fértil para que ervas daninhas cresçam no jardim da consciência.

Nas tempestades mentais, como se houvesse um colapso da lucidez, torna-se difícil polarizar a atenção naquilo de bom, belo e harmonioso que já vivemos — nos momentos em que o Amor foi o acelerador do nosso crescimento. Em geral, como um vício sutil da mente, as recordações se voltam para os erros e desajustes, como se apenas através deles fossemos capazes de promover a ascensão da consciência. No entanto, dependendo do nosso olhar, podemos reconhecer tudo como obra do Sagrado e como oportunidades de escrever os capítulos mais elevados da nossa própria história.
Onde ficaram aqueles instantes em que fomos permeados pela Luz? Os gestos em que o Amor se expressou através de nós? As sementes de bem que lançamos no mundo quase sem perceber? Por que não rechaçar, de imediato, qualquer tentativa de invasão de forças que nos afastam do ser? A mente destreinada fixa-se nas sombras e ignora o vasto campo de claridades que também nos habita.

Talvez aqui resida um exercício essencial: trazer à memória não apenas o que falhou, mas também o que floresceu. Recordar as atitudes justas, os encontros luminosos, as superações silenciosas. Não como fuga, mas como realinhamento e reequilíbrio. Como quem ajusta a bússola antes de prosseguir a travessia.
Esse poderia ser o foco permanente de treinamento interior — uma espécie de fisioterapia da alma. A observação de si mesmo: um retorno deliberado ao ser, à Presença, à Luz íntima, para que Ela fortaleça o eixo e nos proteja dos ventos contrários que inevitavelmente sopram.
Quando nos voltamos para dentro, a balança se reequilibra. A persona cede espaço. O ego afrouxa as rédeas. E algo mais profundo reassume, suavemente, a condução. É nesse recolhimento que a poeira assenta, a visão se amplia e lembramos, não apenas dos acontecimentos da travessia, sejam eles positivos ou negativos, mas de Quem realmente somos.
Esse é o antídoto que resgata a Pureza Original!

Deixa florescer o que a Pureza tem a dizer!
Na névoa que encobre o amanhecer, muito está a se desenvolver …
para quando a Luz chegar, em beleza desabrochar!
Unida às gotículas esparsas pelo ar,
o espetáculo da Vida vem mostrar…
que a qualquer momento é possível começar!
Luz, flor, beleza, pureza!
A Vida é viva e vivê-la é o melhor de si, partilhar…
para com a Luz colaborar.
(Shely Pazzini – Livro: Campos de Consciência)

Envie seus comentários
Livro Pedra no Lago
Instagram
Canal Youtube
