Muito do que vivemos acontece na superfície: decisões, conflitos, escolhas e reações. Mas, sob esse fluxo incessante, existe algo que não se move — um núcleo silencioso que atravessa todas as experiências sem jamais se confundir com elas.
Quando uma pedra toca o lago, há ruptura. O contato gera ondas, desloca superfícies, altera a quietude aparente. Assim também uma palavra dita, um olhar, uma decisão ou gesto que interfere no curso natural das coisas. Pouco importa o tamanho da pedra; basta o toque para que a serenidade seja abalada por instantes.
O que raramente percebemos é que, após o impacto e antes da plena quietude, há uma dimensão que nunca foi violada. Algo permanece — o Ser essencial — sem forma, sem tempo, sem nome, sem atributos. Ao nos voltarmos para o Centro do Ser em meio à turbulência, vemos as ondas perderem força até se dissolverem, revelando novamente o que sempre esteve ali. Incólume.

Para quem se reconhece como Observador de si mesmo, essa postura (ou prática) muda tudo: as ondas deixam de ser ameaças e tornam-se instrumentos de amadurecimento da consciência.
Aqui reside a verdadeira transformação: olhar a vida a partir do Eu interior, render-se à Sua sabedoria e acolher, com gratidão, tudo o que chega. Não há castigo ou punição – apenas circunstâncias que corrigem suavemente nossa rota.
Quando desconectados do Eu, confundimos o movimento com a essência, o ruído com a Verdade, a turbulência com o fim. Reagimos como se as ondas fossem permanentes, como se o lago tivesse sido destruído, quando apenas sua superfície foi tocada.

A reconexão com o Ser começa justamente aí: na capacidade de testemunhar as ondulações sem se perder nelas; de reconhecer o impacto sem permitir que ele macule a quietude; de atuar no mundo sem se aprisionar a ele. Isso só se torna possível quando escolhemos viver sob a égide do Ser, além da lógica mental, atentos aos sussurros que emergem do silêncio interior.
A verdadeira maturidade não está em evitar impactos, mas em permanecer ancorado nas profundezas do Ser. Apesar das ondulações da superfície, a quietude interior segue intacta, sempre disponível, aguardando por aquele que aprende a sustentar serenidade mesmo diante das turbulências do dia a dia.

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