Antes da Quietude

Antes da quietude, há sempre um intervalo sutil.
Um território indefinido entre a ansiedade e a confiança, entre o desejo de controlar e a necessidade de entregar. O corpo percebe: o ritmo desacelera, a atenção se recolhe, algo se esgota. Não é ainda silêncio, mas já não é ruído. É nesse limiar — frágil e verdadeiro — que a quietude começa a se anunciar.

As luzes vão se esmaecendo lentamente.
A respiração torna-se cada vez mais suave.
Uma estranha e serena sensação de desfecho se aproxima.

Aceito. E sou grato.

Vozes surgem de dentro. Não são sons, mas presenças. Os elos mais próximos e experiências vêm à mente — pessoas, histórias, afetos — como quem se despede e, ao mesmo tempo, agradece pelas bênçãos de relações verdadeiras e harmoniosas.

Não era o desenlace, embora assim parecesse.
Era apenas a experiência de um pré-anestésico que antecede uma cirurgia. Ainda assim, algo profundo acontece.

Tudo começa a se resolver por si. Questões antes consideradas importantes perdem peso, dissolvem-se. A mente se eleva, como um drone que sobe lentamente até um ponto amplo, de onde se pode perceber o contexto inteiro da vida. Dali, os contrastes ficam nítidos: o que é efêmero revela sua fragilidade, enquanto a grandeza do Ser se impõe com clareza silenciosa.

Assim como a pedra que toca o lago provoca ondas antes de restaurar a quietude, essa experiência mostrou que, sob qualquer impacto da vida, existe um campo de silêncio intacto, pronto para ser acessado.

Inerte e impotente diante da condição médica, a entrega e o desapego emergem naturalmente. Emoções, pensamentos e sentimentos parecem atravessar uma espécie de peneira sutil, restando apenas o essencial: harmonia, paz, gratidão e perdão.

Então surge um pensamento simples, quase um sussurro interior: podemos acessar esse estado no cotidiano; não precisamos de anestésicos.

É possível sentir as benesses do mundo interior e viver expansões de consciência sem dor, sem ruptura e sem eventos-limite. Basta voltar-se para o Centro — aquele lugar interno onde residem a Pureza e a Bondade Originária.

Quando tocamos esse ponto, tudo se redimensiona. Tudo se equilibra por si. Sem sofrimento desnecessário. Sem amargura.

A chave está na sinceridade da busca.
No quanto estamos realmente dispostos a nos transformar — e, sobretudo, a nos deixar guiar pela Luz do Ser.

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