A travessia parece difícil. O vento muda de direção, carregando uma sensação tênue de perigo. A chuva fina e a névoa baixa turvam a visão, e, de repente, anoitece — como se perdêssemos a bússola do coração.
Que fazer quando parece que a mão já não sustenta o leme?
De onde trazer forças para reencontrar aqueles momentos de enlevo, de alegria verdadeira, quando tudo parecia ter sentido e as respostas fluíam da alma?
É justamente nesse instante — quando os joelhos se dobram e o ego finalmente se rende — que a Luz irrompe. Um rasgo luminoso atravessa a escuridão por um breve segundo, mas é suficiente para indicar novamente a direção. O coração se aquece. Surge uma paz inesperada em plena turbulência.
A Graça sempre chega. Na verdade, nunca se ausenta — somos nós que a perdemos de vista.
Ela não responde a méritos, nem a lógicas humanas de justiça.
Ela simplesmente se revela quando reconhecemos o poder silencioso da Presença.

Às vezes, Ela chega disfarçada: numa palavra que contém tudo, num abraço que nos leva de volta ao essencial, num gesto simples que desperta a alma. Um olhar basta para iluminar a consciência.
E então compreendemos algo precioso: nossa travessia nunca é apenas nossa.
Assim como os barcos sobem com a maré, a consciência também se eleva coletivamente.
A maré nunca sobe para um barco só. Quando se eleva, ergue silenciosamente todas as embarcações ancoradas na mesma enseada.
Assim ocorre com a expansão da alma: quando um ser humano desperta para o mundo interior, cria uma onda sutil que se propaga. Essa onda alcança aqueles que compartilham o mesmo campo de experiência, tocando-os sem esforço, apenas por ressonância. Cada centelha de lucidez acesa em nós se converte em luz disponível para todos.
A ampliação de consciência não é um movimento solitário — é uma maré.
A alma tem consciência grupal, e quando assume o governo da vida, sua luz não beneficia apenas quem a acendeu, mas todos os que navegam pelas redondezas.

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