Entre Dois Mundos – O Desafio de Ser

Parece uma longa viagem, uma espécie de imersão silenciosa em busca de algo maior, algo que dê sentido à existência e revele um propósito mais profundo do que os objetivos traçados pela mente.
Nesse caminho, muitos significados antigos se dissolvem, e a vida, com sua sábia delicadeza, vai conduzindo a novos cenários, novas práticas e novas formas de relacionamento com o mundo.

Por instantes, percebo que não sou mais o mesmo. Às vezes me pergunto como me encaixar na vida de outrora, agora que um outro olhar parece habitar em mim, como se uma consciência mais serena, porém mais exigente, tivesse despertado.
É como uma peça de quebra-cabeça que, ao se afastar por um tempo, se transforma; ao retornar, já não se encaixa com a mesma facilidade no desenho antigo. Não porque se tornou “melhor”, mas porque se tornou diferente, e precisa aprender um novo modo de pertencer.

Uma certa solidão surge, mas também sinto novos elos se aproximando: seres que parecem pertencer a um mesmo grupo de almas, acessando o mesmo campo de consciência.
Como numa trilha, a impressão é de que vamos nos afastando do ponto de partida, da nossa origem, daqueles que nos foram caros, mas isso é apenas mais uma grande ilusão.
Assim como na vida, os contornos da trilha acabam por nos devolver ao ponto inicial, porém a caminhada é espiralada e ascensional, repleta de aprendizados. Traz novos códigos e uma suave sensação de renovação.

Quando observo essa questão sob a ótica da mente, percebo o risco da soberba, da separação e até da ingratidão. Afinal, tudo o que vivi, cada encontro, cada ajuda, cada experiência, foi um degrau nessa travessia.
Mas quando silencio a mente e volto ao coração, noto que nada se perdeu. Tudo apenas se transformou. O que antes era “eu e o outro” agora se revela como expressões de um mesmo Ser.

É uma vivência que convida à humildade, porque quanto mais se percebe a unidade, menos espaço resta para o orgulho. Nesse novo estado, pontes se refazem, vínculos ganham outros significados e a vida se apresenta com novos contornos.

“Viver no mundo sem ser do mundo” sempre será um grande desafio nessa contínua reforma íntima.
Ser autêntico, íntegro e leve em qualquer lugar, com quem quer que seja, é um exercício diário.
Requer vigilância para evitar o isolamento e a vaidade espiritual, e também prudência para que aquilo de mais precioso, nossa essência, não se contamine pelas pressões externas.

No fundo, talvez o propósito seja simplesmente ser Presença: silenciosa, disponível e verdadeira.
Deixar que a Vida se manifeste através de nós, sem que o ego interfira.
Apenas Ser!

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