Dentro de nós existe algo que nunca envelhece nem sucumbe, não importa o que aconteça ao nosso redor. É uma parte silenciosa e eterna que permanece incólume. Essa presença interior, que podemos chamar de essência divina, está sempre pronta a nos resgatar do mundo ilusório da matéria, como uma voz calma que nos lembra da beleza e da pureza vida.
A personalidade é constantemente testada pelos imprevistos da existência. Porém, mesmo entre os desafios, cada situação é um convite para reafirmarmos a conexão com o Imperturbável. Nesses momentos, podemos nos lembrar dos recursos latentes da perseverança, da fé, da coragem e, acima de tudo, da entrega. Eles só podem emergir se estivermos em vigilância, atentos àquilo que está por detrás das aparências.
Deixar-se guiar pela alma é permitir que a Vida flua com mais leveza.
Mas como saber se estamos, de fato, sob a condução da alma? Como confiar quando tudo parece confuso, quando os desafios se avolumam e as respostas não aparecem?
A resposta não está na lógica da mente, mas na experiência íntima. A sabedoria antiga nos lembra: “o verdadeiro Eu não é uma ideia, mas uma experiência” (ver À Procura da Verdade – Ângela Maria La Sala Batà). Há momentos em que, no silêncio interior, percebemos uma certeza suave de que tudo faz parte de uma Vida maior, que somos guiados por uma Inteligência Suprema. Quando sentimos essa confirmação, não há mais luta — apenas confiança. Vislumbres, abençoados e fugidios, resgatam a pureza original, o sentimento de unidade com toda a vida manifestada.
Mas como saber se estamos em sintonia, unos, com a vida?
A prática do sentimento de unidade não exige grandes feitos e também não é um privilégio de alguns “eleitos”, mas uma atenção sincera aos momentos simples da vida. Cada vez que estendemos a mão a alguém sem esperar retorno, cada vez que respeitamos o ritmo da natureza, cada vez que silenciamos antes de reagir, estamos experimentando a unidade. Não se trata de eliminar todas as dúvidas ou alcançar um estado perfeito, mas de cultivar, no cotidiano, a presença, a compaixão e a generosidade. A vida então se revela mais harmônica, e podemos escutar os sussurros da outra margem do ser.

Mesmo que a mente questione, a alma sempre encontra passagem. Basta um pequeno espaço interno, um instante de rendição plena, para que a Luz atravesse e toque nossa consciência. E, nesse exato momento, a Vida muda: tudo se torna mais simples, mais claro, e somos curados da ilusão da separatividade.
O maior desafio, talvez, seja acolher a transformação enquanto tudo está em movimento. A verdadeira entrega é confiar mesmo sem compreender. É reconhecer a perfeição divina, mesmo quando tudo parece desconstruir-se. Quando silenciamos e deixamos fluir, a consciência se expande e compreende que cada passo tem um sentido, cada ciclo possui sua sabedoria.
Praticar o “deixar fluir” é abrir portas internas para o novo, para o crescimento, para a reconexão. Acesse aqui o artigo “Reconexões”.
Não temos a visão completa da jornada, mas o Regente da orquestra conhece cada acorde da sinfonia da vida. Podemos confiar que tudo coopera para o nosso despertar. As provas não são punições — são oportunidades para purificar, amadurecer e resgatar. Num mundo caótico, esses argumentos parecem poesia e ilusão, contudo, o “sentir” a unidade com tudo o que é manifestado é algo cristalino, como uma bússola que aponta o caminho de ascensão.
A entrega não é passividade. É a mais profunda forma de ação interior. Ao nos rendermos à Vida, tornamo-nos mais livres, mais autênticos, mais serenos.
Mesmo nos momentos de dúvida, quando o caminho parecer incerto, que possamos nos lembrar do “voltar-se para dentro”. O Ser sabe o direção e o propósito. Permaneçamos no agora, observando o fluxo dos pensamentos, reconhecendo as emoções, mas não nos deixando aprisionar por elas. Assim, aos poucos, a alma encontra passagem, e a Vida flui com suavidade.
E cada vez que silenciamos, escutamos e seguimos, mesmo sem garantias, uma nova vida se inicia. A alma conduz, e tudo flui. Não há mais espaço para o egoísmo!

